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A proposta da rede Ergonomia do EcoInnovate4Sustain

A plataforma pretende divulgar a ergonomia na sua essência macro, prezando pelos princípios sistêmicos, participativos, multi e interdisciplinares, e ser um fórum para debater sobre os meios de aplicação da macroergonomia.

A ergonomia tem muito a contribuir para a dimensão social (questões humanas) da sustentabilidade e, na sua perspectiva macro,  também para as questões nas interfaces ambiental, cultural, espacial e econômica que são a base para um presente e futuro sustentáveis. Principalmente no Brasil, com tanto diversidade cultural (o que é positivo) mas tanta desigualdade socioeconômica (o que é negativo), a macroergonomia é um caminho que pode e deve ser trilhado para a construção de um pais melhor.

A pergunta da rede Ergonomia do EcoInnovate4Sustain

Como podemos promover o desenvolvimento sustentável em diversas regiões brasileiras, otimizando  o sistema produtivo por meio do trabalho decente (com saúde, segurança, dignidade, prazer, estabilidade e produtividade), utilizando recursos humanos e sociais locais, reduzindo desemprego, gerando trabalho e renda e conservando o território e a cultura local?

O foco da rede Ergonomia 

Mudança de pensamento

Identificar e contribuir para iniciativas e projetos ergonômicos e discutir seus impactos na sustentabilidade dos sistemas produtivos. São foco de atenção, os estudos que visam a otimização das empresas, ações voltadas às comunidades onde as empresas estão inseridas, às populações menos favorecidas e às pessoas com deficiência, enfim, estudos/ações voltados para a inclusão social e vida comunitária, extrapolando os portões das empresas. 

A plataforma pretende viabilizar mudanças no pensamento micro-orientado (que vem sendo a tônica de muitas intervenções ergonômicas) para uma visão macro, mais sistêmica. Mas qual a diferença entre micro e macro ergonomia?

Na realidade, não deveria haver uma distinção entre micro e macroergonomia pois, na sua definição, o caráter da ergonomia é macro, sistêmico. Pela definição internacionalmente mais aceita

 “Ergonomia (ou fatores humanos) é uma disciplina científica relacionada ao entendimento das interações entre os seres humanos e outros elementos ou sistemas, e à aplicação de teorias, princípios, dados e métodos a projetos a fim de otimizar o bem estar humano e o desempenho global do sistema” (Associação Internacional de Ergonomia –  IEA, 2020 e Associação Brasileira de Ergonomia – ABERGO, 2020).

A disciplina da ergonomia “está orientada para uma abordagem sistêmica de todos os aspectos da atividade humana e, para tanto, é preciso que os profissionais que atuam na área de ergonomia tenham uma abordagem holística de todo o campo de ação da disciplina” (ABERGO, 2020), tanto em seus aspectos físicos, cognitivos, sociotécnicos, organizacionais, ambientais, e outros fatores relevantes, e também as complexas interações entre seres humanos, outros seres humanos, o ambiente, ferramentas, produtos, equipamentos e tecnologia (IEA, 2020).

A IEA e a ABERGO  dividiam a ergonomia em três domínios de especialização: o físico, o cognitivo e o organizacional. A Ergonomia Física estuda características de anatomia, fisiologia, antropometria e biomecânica ligadas às questões físicas humanas (IEA, 2000; ABERGO 2020) e também questões físicas ambientais como temperatura, ruído, ventilação. A Ergonomia Cognitiva tem foco nos processos mentais do trabalho (percepção, memória, processamento de informação, interação humano-computador, comunicação) e a Ergonomia Organizacional considera os fatores de estruturas organizacionais, políticas e de processos (IEA, 2000; ABERGO, 2020).

Recentemente, em março de 2020, a IEA (2020) excluiu da definição de ergonomia os domínios de especialização, e inseriu duas “perspectivas”: microergonomia, design de procedimentos, contexto, equipamentos e ferramentas para trabalho; e macroergonomia, organização do trabalho, tipos de trabalho, tecnologia utilizada, funções do trabalho, comunicação e feedback (IEA,2020).

Da microergonomia à macroergonomia

Foram Hal W. Hendrick e Brian M. Kleiner quem, nos anos 1990, utilizaram o termo macroergonomia para distinguir entre a perspectiva sistêmica da ergonomia, e a ergonomia do individuo, focada ou no posto de trabalho, ou no ambiente físico ou na interação humano-computador, que ocorreram em função das demandas em diferentes momentos da história e, em consequência, marcaram diferentes fases da ergonomia. As três primeiras fases focam em diferentes questões, sob uma perspectiva micro orientada.

1a fase, ergonomia tradicional ou de hardware

Desenvolvida durante e a partir da 2a Guerra Mundial

No inicio, a ergonomia focou as características (capacidades, limites) físicas e perceptuais do ser humano, e na aplicação dos dados no design de controles, displays e arranjos de interesse militar. Quando transposta para a arena civil, foi e ainda é aplicada em postos de trabalho.

É a tecnologia de interface humano-máquina (hardware) para adequar o trabalho fisico ao ser humano, no nível individual, ou microergonômico.

2a fase, ergonomia do meio ambiente

Desenvolvida a partir da década de 1970

3a  fase, ergonomia cognitiva ou ergonomia de software

Desenvolvida a partir da década de 1980

Trata das questões ambientais (ruído, vibrações, temperatura, iluminação, aerodispersóides) que interferem no trabalho.

É a tecnologia de interface humano-ambiente para adequar o meio de trabalho fisico ao ser humano, no nível individual, ou microergonômico.

Com o advento da informática, o foco é o estudo do processamento de informação e sua aplicação em sistemas informatizados.

É a tecnologia de interface humano-máquina (software) para adequar o trabalho cognitivo ao ser humano, no nível individual, ou microergonômico.

Hendrick, H.W. e Kleiner, B.M. (2001) Macroergonomics: an introduction to work system design. Santa Monica: Human Factors and Ergonomics Society.

 

Hendrick, H.W. e Kleiner, B.M. (2002) Macroergonomics : Theory, Methods and Applications. Mahwah : Lawrence Erlbaum Associates

4a  fase, macroergonomia 

Desenvolvida a partir da década de 1990

Bases da  macroergonomia: 

sistema sociotécnico 

Trist, E.L. e Bamforth, K. W. (1951)  Some social and psychological consequences of the longwall method of coal-getting. Human Relations, 4 (1): 3-38,

Hendrick e Kleiner (2001, 2002) defendem que ergonomia não se restringe a questões individuais (como o posto, o ambiente físico e questões cognitivas do trabalho) e impulsionaram a macroergonomia, que foca o sistema formado pelos seres humanos, o ambiente, as máquinas (hardware e software), o processo de trabalho, a organização e o ambiente externo (questões organizacionais, culturais, políticas) que impactam no desempenho do trabalhador e da empresa.

É a tecnologia de interface humano-organização-ambiente-máquina (hardware e software) cujo objetivo central é otimizar o funcionamento dos sistemas de trabalho, tendo em conta a interface do desenho organizacional com a tecnologia, o ambiente e as pessoas.

As bases da macroergonomia se apoiam no conceito de sistemas sociotécnicos (Trist e Bamforth, 1951) que considera que o subsistema social (pessoas, grupos, seus sentimentos, comportamentos, capacidades, cultura) e o subsistema técnico (máquinas, equipamentos, materiais) devem ser considerados de forma integrada para que qualquer sistema, como um todo, funcione de forma equilibrada, sem perda de produtividade.  Notar que um sistema sociotécnico pode ser um único individuo usando uma ferramenta manual ou um sistema complexo, como uma organização multinacional.

 

Na macroergonomia, Hendrick e Kleiner (2001, 2002) consideram que o  sistema de trabalho (foco da macroergonomia) consiste em dois ou mais indivíduos interagindo com alguma forma de 1) projeto de trabalho (tarefas, conhecimento e habilidades); 2) máquinas e ferramentas (hardware) e/ou software; 3) ambiente interno (fatores físico-ambientais e psicossociais); 4) ambiente externo (política, cultura, questões econômicas, a sociedade, que geram incertezas e inseguranças no ambiente interno (da empresa)); 5)  projeto organizacional (estrutura organizacional e processos do sistema de trabalho). Estes componentes, ou subsistemas, em interação constituem o sistema sociotécnico (Hendrick e Kleiner, 2001, 2002).

 

O objetivo da macroergonomia é a otimização do projeto do sistema de trabalho a partir das características de seu sistema sociotécnico, chegando até o projeto de trabalho individual, das interfaces humano-máquina, humano-ambiente e humano-software.  Quando se atinge o objetivo de um sistema de trabalho harmonizado, o resultado são melhorias significativas na performance organizacional e eficácia (Hendrick e Kleiner, 2001, 2002)

Boa ergonomia é boa economia

Hendrick, H.W.  (1996) Good Ergonomics is Good economics. Human Factors and Ergonomics Society, Santa Monica.

Ergonomia participativa na  macroergonomia 

Brown, O. Jr. (2002) Macroergonomic Methods : Participation. In: Hendrick, H.W. e Kleiner, B.M. (2002) Macroergonomics : Theory, Methods and Applications. Mahwah : Lawrence Erlbaum Associates

https://www.youtube.com/watch?v=SyJgs5QmxOE

https://www.youtube.com/watch?v=Y8nU_BhETtQ

Em geral, a visão de ergonomia adotada nas empresas é mico orientada, ou seja, foca no individual ou em um subsistema (por exemplo, máquinas, ferramentas, posto de trabalho, projeto de trabalho, ambiente físico) sem considerar os impactos nos outros subsistemas. Mesmo que se obtenha algum ganho com a intervenção micro, tais como redução de dor, desconforto, e mesmo um ganho de produtividade, as ações micro, por não considerarem o sistema sociotécnico como um todo, não conseguem ser tão eficientes em comparação com as intervenções macro orientadas.

 

Para os defensores da macroergonomia (e.g. Hendrick e Kleiner, 2001, 2002), é perfeitamente possível realizar um ótimo trabalho de ergonomia projetando um componente ou subsistema, mas não conseguir ganhos de eficiência pelo fato de não ter sido dada atenção ao projeto do sistema como um todo.

Com a visão macroergonômica, é possível auferir a melhoria das condições de trabalho, saúde e segurança, e reduzir perdas (de saúde, de segurança, de tempo, de materiais,  de produção) e, portanto, aumentar a performance organizacional.

A questão de custos-benefícios da ergonomia  é abordada por  Hendrick (1996) em seu artigo intitulado "Good Ergonomics is Good Economics" (boa ergonomia é boa economia). O autor  mostra que as melhorias obtidas com a macroergonomia geram ganhos de performance para o sistema na ordem de 60% a 90%, enquanto com projetos pontuais, ao nivel individual ou microergonomia (melhorias no posto, no meio ambiente ou na interface humano-computador), os ganhos são de 10% a 25%. 

Enquanto perspectiva, a macroergonomia inclui participação, flexibilidade, otimização conjunta, design participativo, harmonização do sistema, e melhoria continua do processo. A ergonomia participativa é um dos métodos mais importantes para o desenvolvimento da macroergonomia pois é uma forma de envolvimento dos empregados no design e análise ergonômicos (Brown, 2002), 

Existem dois videos sobre macroergonomia disponiveis na internet, que podem ajudar a melhor entende-la.

Um do prof. Adam Piper, PhD, South Dakota School of Mines and Technology, e um de Michele Robertson, PhD, CPE, do Liberty Mutual Research Institute for Safety.

Leis de incentivo à ergonomia

No Brasil, as empresas têm obrigação legal de otimizar seus sistemas de trabalho desde a década de 1940, com o Decreto-Lei nº 5.452, de 1943, da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) composta por oito capítulos, sendo o quinto especifico para Segurança e Medicina do Trabalho. Mas só mais tarde, em 08 de junho de 1978, a Portaria nº 3.214 aprovou as Normas Regulamentadoras - NR - do Capítulo V, Título II, da CLT, relativas à Segurança e Medicina do Trabalho e, entre estas, a Norma Regulamentadora 17 - NR17 especifica de ergonomia que

 “visa estabelecer parâmetros que permitam a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente”.

A versão de 1978 da NR17 foi atualizada em 1990, pela Portaria MTE/MPS nº 3.751 de 23/11/1990, em 2007 pelas Portarias SIT 8/2007 (DOU 02/04.2007), SIT 9/2007 (DOU 02/04/2007) e SIT 13/2007 (DOU 26/06/2007) e em 2018 pela Portaria MTb 876/2018 (DOU 26/10/2018).

Em 30 de agosto de 2019, uma nova redação da NR17 foi submetida à consulta pública (até 28 de setembro de 2019) e as sugestões enviadas para a Secretaria de Trabalho, para análise e elaboração  da proposta de texto a ser encaminhada a grupo tripartite (formado por representantes do governo, de trabalhadores e empregadores) para discussão e aprovação. O grupo tripartite deverá encaminhar a proposta de texto final a ser discutida e aprovada no âmbito da Comissão Tripartite Paritária Permanente – CTPP.

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